3 de jan de 2018

Resenha: Jegwaká- O Clã do Centro da Terra, de Vânia P. S. Hu'yju

Desafio Literário MS 2017 - Um Livro com protagonista não-branco

Sim, é o primeiro post de 2018. Sim, eu sei que 2017 já acabou, mas quero finalizar esse desafio, ahaha) 




Autora: Vania P.S. Hu'yju ( (Vânia Pereira da Silva)

Editora: Skull  

Edição: 1ª - 2017  - 271 páginas

Também disponível no Wattpad 
( amostra de alguns capítulos)



"No mundo de Jegwaká, deuses, demônios, senhores das matas, das águas e de territórios terrestres e até do subsolo convivem e atuam no mundo humano. E ali disputam uma guerra de posse de almas, corpos e territórios" ( Parte da sinopse, na contracapa do livro)


    Vânia Pereira da Silva ( que assina esta obra como Vania P.S. Hu'yju), é professora e missionária em aldeias indígenas, sendo fluente nas línguas Kaiowá e Guarani. Formada em Pedagogia e com especialização e mestrado, ela já produziu muitos artigos, capítulos de livros, materiais didáticos, literatura  e revistas científicas sobre cultura, história e Educação escolar indígena.


Por isso pode-se dizer que sua escrita em Jegwaká é realizada com propriedade e conhecimento sobre o que está escrevendo. 

             Jegwaká conta principalmente a história de Kunhã Rendy e seu irmão Avá Verá, do clã Te'ýi (Kaiwoá), que acabaram de entrar na puberdade. Neste período, segundo as crenças de seu povo, eles estão mais suscetíveis a ação de seres sobrenaturais, tanto para o bem quanto para o mal. A família de Kunhã Rendy e Avá Verá é composta também pelos seus pais, que são muito afetuosos e seu irmãozinho, Mitã Rory, que tem apenas três anos. 
Kunhã Rendy começa a ser assediada por um ser que chama de Adornado e  que apenas ela vê. Logo após,ocorrem diversos acontecimentos funestos no território em que esta família mora: seu irmãozinho quase morre, acontece uma grande seca e  sumiço de animais, além de um grande incêndio. A menina é acusada de atrair o mal para sua aldeia, por isso sua família precisa fugir. Durante esta fuga, Avá Mbaraetê - o pai - é tragado  por uma força sobrenatural e Avá Verá corre em seu encalço. Kunhã Rendy, sua mãe e  Mitã Rory precisam,além de evitar encontrar os membros de sua aldeia, descobrir o paradeiro do pai e do irmão. Durante esta jornada cada membro da família passa por verdadeiras provações, resultantes da disputa dos deuses e seres sobrenaturais pelos três filhos do casal. Esta disputa ocorre pois Avá Verá, Kunhã Rendy e Mitã Rory foram enviados pelos Járy, ou seja, deuses (ou donos) que habitam diferentes patamares celestiais, porém despertaram  ira e violência por parte de outros, que os querem destruir. 

" (...) À chegada destes, os outros recuam, fogem, gemem. Há um respeito para com eles que é provocado por um medo aterrador. Não são simples avaetês, e sim Avaetês de Nhande Ryke'y Tee Va'e. Um caminho é aberto nas alturas, os recém-chegados se aproximam do gwyrá, alma do homem assassinado, recebem-no, cercam-no, tomam-no. E no instante de um piscar de olhos, eles não são mais. Sumiram todos"  ( página 17) 


          O enredo é muito envolvente,mostrando a rica cultura dos Kaiowá, além de aspectos de outros clãs com os quais os irmãos e a mãe acabam se deparando durante sua jornada à procura do pai. Tanto os costumes terrenos quanto detalhes do mundo espiritual, são narrados com detalhes. 
A narração se divide entre Kunhã Rendy, Avá Verá e o Adornado (Avá Poty), além de um capítulo  narrado por Potyrã (a mãe). A sucessão de acontecimentos cria uma história que flui rapidamente, não deixando tomar fôlego. Durante a leitura, senti o desespero, a ansiedade, a insegurança dos personagens e cheguei a chorar durante uma cena de despedida após um assassinato. 
O final fica em aberto, pois este é o livro um, ou seja, é preciso esperar o lançamento da sequência para saber se Kunhã Rendy e seus irmãos conseguirão encontrar finalmente o pai. 


Há alguns pequenos problemas no livro, como palavras que não foram separadas corretamente ( algum problema durante a revisão, antes de publicar provavelmente), uns poucos erros de escrita e o fato de o prólogo e a página que inicia cada capítulo ter a imagem da floresta em cinza, o que dificulta um pouco a leitura. Porém nada disso tira o encanto do texto. 



Recomendo muitíssimo a leitura, pois nossa literatura está carente de narrativas como esta, retratando a cultura indígena sem estereótipos. 





Até a próxima! 

2 comentários:

  1. Olá, primeiramente quero desejar que esse ano seja de muita interação fraterna, momentos felizes na sua vida, paz, amor, saúde e muita inspiração.
    Quanto a essa sugestão de leitura, veio na hora certa, pois leitura que nos faz conhecer mais outras culturas, outros pensares e modo de ver a vida, a religião e as crenças pagãs ou não, sempre é relevante. Por essa resenha, já deu vontade de adquirir o livro e debruçar nessa aventura cheia de riquezas culturais e mistérios.
    Abraços carinhosos!

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  2. Que linda resenha! Percebe-se que a autora do texto absorveu totalmente a essência do livro. Agradeço muitíssimo por trabalho. Com relação aos problemas com a edição do livro, eles já tinham sido notados por mim, já comuniquei a editora e eles estão corrigindo. Obrigada: Vânia.

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