1 de fev de 2017

Rock and Roll All Nite


        A guitarra já estava afinada. A bateria, colocadinha lá no palco. O baixo, nas mãos de seu dono. Casa cheia, seria uma noite ótima! Clarissa já ouvia em sua mente os acordes do baixo. Tum, tum, tum... dedilhava no ar uma de suas músicas favoritas. O grupo tocaria hoje covers do Kiss e Iron Maiden se desse tempo. Baixo. Um dos sons que as pessoas menos prestavam atenção. Discreto como Clarissa. Muita gente esperava os shows de rock para ver os trejeitos e solos de guitarra ou delirar com o baterista colocando sua força nos pratos e tambores, mas Clarissa sabia. 

        A música é isso, tem de ter a harmonia. Rock não é só bateria e guitarra. Sem o baixo, muitas músicas não teriam a graça que tem. “Se você está aqui, dos Titãs”, por exemplo. Caramba, teria muita diferença se não fosse o som do baixo na música o tempo todo, preenchendo com seu tom grave o refrão e o tempo sem voz. Nem todos prestam atenção, mas faria falta sim. Da mesma forma que ela e a equipe de trabalho. Todos viam os músicos, a banda no palco, mas poucos paravam para pensar no trabalho de toda uma equipe, mais numerosa que os componentes da banda, que passariam facilmente despercebidos na rua. Toda uma equipe trabalhando para um resultado final.

A banda logo se apresentaria. Clarissa verificou novamente se todos os itens essenciais no palco estavam em seus lugares. O guitarrista dava uma última verificada na guitarra. As luzes estavam sincronizadas, já haviam sido testadas. Desde as duas da tarde, quando começou a passagem de som, Clarissa estava lá. Chegou até a dedilhar no baixo alguns acordes de Babilônia Blues. Faltavam menos de cinco minutos para o show começar. Todos já estavam a postos. Clarissa fez um silencioso sinal de positivo com o polegar, e todos foram ao palco.

Continuava ali, assistindo dos bastidores. Ganhara o baixo do seu pai, e ainda o conservava bem. Tocava eventualmente com alguns amigos, mas ainda não cruzara a fronteira que a separava do palco. Há alguns anos conseguira este emprego, nos bastidores. Sempre eficiente e meticulosa, era a funcionária favorita da banda, porém por alguma razão que talvez fosse maior que simples timidez, não manifestava sua vontade crescente de estar em um palco, dividí-lo com a banda em vez de contemplá-los tocando após todo o trabalho. Fazia parte da banda, de alguma forma. Se não estivesse ali para checar o som, luzes, passar a playlist e providenciar outros artigos de necessidade, os shows não aconteceriam com o mesmo brilho. Ou talvez nem acontecessem. 

O que seria da banda se de repente Clarissa revelasse seu gosto por tocar, nem que fosse para juntar-se à banda ao final dos shows, para relaxar após tudo estar pronto para seguir estrada? Tudo ia tão bem do jeito que estava. A vontade crescente de dividir um palco e vibrar com a música conflitava com a responsabilidade de montar os shows.


Enquanto a música contagiava o ambiente e a galera ia ao delírio com “I wanna Rock and Roll All Night”, Clarissa discretamente buscou o baixo que estivera dentro do carro e, aproveitando um canto nos bastidores em que poderia ver seus amigos na banda sem deixar-se notar, foi dedilhando notas que somente ela ouviria. Não deixaria de praticar. Quem sabe um dia.


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