2 de mar de 2012

Várias facetas, várias vidas.

ANA


Acordei assustada naquela manhã de setembro. Nove horas! Estava atrasada. Peraí, atrasada para que? Eu estava desempregada há quatro meses!

Desanimada (por que não consigo logo um emprego?), fui fazer um café. Olhei a janela: lá fora se via o alegre movimento das borboletas sobre as flores amarelas. Depois do café, forçosamente, eu teria de ir às ruas, bater de escritório em escritório, com meu currículo na mão(depois de mandar vários outros por e-mail), receber vários nãos, voltar exausta para casa e almoçar qualquer porcaria. E à tarde, repetir aquela romaria... não, disse para mim mesma. Naquele dia, não.
Ia ficar em casa, sem nada para fazer, recarregando as baterias.
Amanhã eu recomeço, disse a mim mesma. Hoje, vou ficar aqui. Só, comigo.
Uma última olhada pela janela. Primavera. Um dia lindo, perfeito, para não fazer nada.
Resolvi dar uma volta pela cidade. Naquele dia, só naquele dia, eu não seria alguém procurando emprego,eu não passaria pelas ruas prestando atenção a anúncios. Daria uma trégua a mim mesma.
Passei a manhã em casa e fiz um almoço decente, o primeiro em vários meses. À tarde, o passeio planejado. Pena não poder fazer compras! Vivendo daquele maldito salário desemprego, era o básico que deveria escolher: comida, higiene e e talvez se possível, alguma roupa.
Passei por ruas, calçadas, puxa, quanta gente para todos os lados! Parei em um banço na praça, fiquei olhando aquele movimento todo de gente, o chafariz no centro. Muitos passarinhos rondavam uma dessas estátuas que a gente passa todo dia e não liga para o que elas representam, pois está engolido pela engrenagem que faz a sociedade se mover. Trabalho,trabalho.. eu prometi que não iria pensar nisso, não naquele dia.Os passarinhos tomavam banho no incessante chuvisco que o chafariz proporcionava. Puxa, eles tem a vida mansa... Saí calmamente, cantarolando baixinho, pensando na vida. Já faziam três anos que  morava naquela casa. Sozinha, porém independente.
Poderia ir para a casa de meus pais, enquanto não arranjasse emprego. Mas sentia que seria um retrocesso. Seria colocar por terra toda a luta por independência que travei durante anos.

(continua.... ) 

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