21 de jul de 2011

Please don't go

Estavam em uma mesa, no barzinho "de sempre", em um canto meio escuro, de forma que seus rostos pouco se distinguiam. Ela começou a pensar: tantos anos que estavam juntos. O que havia visto nele mesmo? Tentava se lembrar do início, parecia tanto tempo! A primeira troca de olhares, um arrepio na nuca (tinha mesmo sentido um arrepio ou isso era trecho de um filme?), o dia em que casaram, o nascimento do primeiro e único filho...

Esse barzinho era um local que frequentavam no tempo de solteiros, e com o passar dos anos vinham frequentando cada vez menos.  O olhar dela se fixava no rosto tão familiar, de tantos anos. Tantos que às vezes nem se dava conta do quanto cada um havia mudado. Ela, uma garota cheia de sonhos, de planos. Queria ser arquiteta e viajar cada ano para um local diferente do mundo. Agora era secretária em um escritório mediano, dificilmente  subiria além disso. Há mais de dez anos não saía da cidade.
Ele também estava olhando para o rosto dela, ou melhor, para o que conseguia ver. Puxa, quanto tempo se passara. Ela não mudara tanto. Ele prometera o mundo quando casaram, há vários anos atrás. Era um jovem estudante, com pretensões de construir uma sólida carreira como engenheiro. Assumira a firma do pai, após o mesmo ficar doente, e nunca mais saiu de lá.
Levavam uma vida confortável. Mas naquela noite, divagavam em silêncio... o barzinho, a meia-luz, um aparelho de som despejando "Please don't go, don't go away... " era como se, ao olhar para o lado, pudessem se ver como foram no passado. Podia se ver no outro canto, com o grupo de amigos que os acompanhava, há anos atrás, pensou ela.
Como se houvessem imagens etéreas, esperando que aparecessem novamente para estimular a memória, como se o tempo voltasse.
Engraçado como as coisas vão acontecendo, como os anos passam e não parece que tudo isso aconteceu com a gente- disse, mais para si mesma do que para o esposo.
- É, respondeu ele, ainda pensativo. Onde será que andaria o Éder? A Marga...? O pessoal que toda sexta-feira fazia rodinha de violão? Em uma dessas rodinhas tomara coragem para fazer o pedido de casamento.
O que estava sendo a vida deles agora? Será que teria coragem para colocar em uma balança tudo o que haviam vivido, para ver se valia a pena? Ou era melhor afogar essa vontade junto com o copo de cerveja, que havia acabado de chegar? Afinal,  há certo e errado na vida?
Sentiu a esposa tocando sua mão.
-Quanta coisa vem à cabeça num lugar desses, né?
-Sim...
- Deveríamos aparecer aqui mais vezes...
Aparecer mais vezes. E ver o passado vivo, as recordações aos borbotões.
- Ou não.
Não. não remexer o passado.
- Talvez a gente volte, disseram enfim, um ao outro.
Fitaram-se em silêncio. Pagaram a conta, e foram para casa, para suas vidas.

3 comentários:

  1. A crónica está fantástica, faz mesmo pensar que essa vidinha confortavel que muita gente troca pelos sonhos que tinha, não é tão boa como parece.

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  2. Victória, obrigada pela visita e pelo comentário.
    Não resisti e li teu perfil.. adorei seu "Quem sou eu" ! rs

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  3. Me lembrou muito o filme "Revolutionary Road", com o Leonardo Dicaprio e a Kate Winslet.
    Eles estão nessa situação, saturados da mediocridade e então resolvem mudar (ou melhor, tentar mudar) suas vidas.

    Acho que é aquela questão existencial de querer ser algo além do que se é, viver algo além do que se vive.
    Gostei bastante da sua crônica.

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